Adélia Prado no Roda Viva

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Na última segunda-feira, dia 24, a nossa querida Adélia Prado estava no Programa Roda Viva da TV Cultura. Que delícia de conversa! Uma boa prosa mineira!

Adélia, com seu jeito simples e despretencioso de ser, falou de sua admiração por Guimarães Rosa, quem, em sua opinião, melhor conhece o seu estado natal, Minas Gerais.

Entre outros assuntos abordados pelos entrevistadores, como o feminismo versus o feminino, Adélia não quis fazer alardes. Apenas defendeu a importância dos papeis feminino e masculino no dia a dia de uma família. Feminismo e machismo é uma outra questão, um terreno em que ela preferiu não se adentrar.

Para a autora o certo é que tais papeis ocupam espaços diferentes e ambos importantes no desenvolvimento de uma pessoa! Disse que o homem bem resolvido conhece e aceita o seu lado feminino, que possui um maior espectro de sensibilidade.

Sensibilidade, aliás, é algo que esta mineira de Divinópolis tem de sobra! Ao falar de sua identificação com coisas da Rússia, como a língua, o cinema, a literatura…Ressaltou o uso constante do diminutivo, algo que também percebe acontecer no português com frequência. Adélia vê com encantamento tais semelhanças, como se o diminutivo deixasse o discurso mais leve e fluido.

Interessante a comparação! Só mesmo partindo de uma alma mais sensível, uma mulher que está em paz com o seu feminino e também com a condição humana de imperfeição.

Para finalizar a entrevista disse que a única coisa no ser humano que é perfeita é a precariedade. Bonito isso! Estamos aqui para aprender.  E por que não podemos fazer isso eventualmente de uma forma mais doce?

Para mim há uma candura impregnada no nome Adélia Prado.

                                                                                                                        Ana Cristina Teixeira

Abaixo um poema lido pela autora durante o programa.

 

“As Mortes Sucessivas”

Quando minha irmã morreu eu chorei muito
e me consolei depressa.
Tinha um vestido novo
e moitas no quintal onde eu ia existir.
Quando minha mãe morreu,
me consolei mais lento.
Tinha uma perturbação recém-achada:
meus seios conformavam dois montículos
e eu fiquei muito nua,cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.
Quando meu pai morreu,
nunca mais me consolei.
Busquei retratos antigos,
procurei conhecidos,
parentes, que me lembrassem sua fala,
seu modo de apertar os lábios e ter certeza.
Reproduzi o encolhido do seu corpo
em seu último sono e repeti as palavras
que ele disse quando toquei seus pés:´
deixa, tá bom assim´.
Quem me consolará desta lembrança?
Meus seios se cumpriram
e as moitas onde existo
são pura sarça ardente de memória.

Poema integrante do livro “Bagagem”, de Adélia Prado

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