O caminho para a liberdade de ser você mesmo

entrega

Passamos a vida inteira nos protegendo, tentando nos poupar do inevitável na vida: a morte. Só que, com medo da morte, deixamos de viver para apenas “sobreviver”.

Sobrevivemos a todas as dores e lutamos bravamente muitas batalhas. E consumidos por essa lutas, muitas vezes perdemos contato com o nosso “eu “.

Hoje quem ousa experimentar suas dores, ou usufruir dos seus prazeres, é visto como fraco. Não se pode ouvir o corpo que pede para sentir a emoção. Vivemos na contramão do “sentir”, na repressão das emoções.

Como consequência ficamos tensos, nervosos e até doentes. E em vez de aceitarmos os sentimentos e sermos gratos por eles, passamos a vida nos escondendo deles.

A seguir apresento aos meus leitores um texto muito coerente de Ana Lúcia Faria explicando sobre a importância da entrega aos nossos sentimentos para sermos livres e, assim, conhecermos a alegria de verdade.

Entrega

Na obra de Lowen, o conceito de alegria significa que o ser humano possa abrir o coração, entrar em contato consigo mesmo, com o outro e não temer a experiência de todos os sentimentos dolorosos que se instalaram dentro de si mesmo ao longo de sua vida. É a aceitação do mundo, do real, tal como ele existe.
Podemos aceitar a dor desde que não estejamos presos a ela. Podemos aceitar a perda, se soubermos que não estamos condenados a um luto contínuo. Podemos aceitar a tristeza quando sabemos que a alegria brotará novamente.
A infância, segundo ele, presumindo que seja uma infância saudável é caracterizada pelas duas qualidades que conduzem à alegria: liberdade e inocência. Liberdade é o direito de ir em busca da própria felicidade ou alegria de viver. Precisamos também ter liberdade de expressar abertamente os próprios sentimentos. As crianças nascem inocentes, isto é, sem inibições ou culpas em seus sentimentos.
As tensões musculares crônicas constituem a prisão que impedem a livre expressão de uma indivíduo e manifestam a inibição de impulsos que a pessoa não ousa expressar, temendo punições verbais ou físicas.
Todo músculo cronicamente tenso no corpo é um músculo assustado, ou não se defenderia com tanta tenacidade contra o fluxo dos sentimento e da vida. Esse também é um músculo enraivecido, pois a raiva é a reação natural a limites impostos à força e à negação da liberdade. E há também tristeza ao perder o potencial para um estado de excitação prazerosa que faria o sangue circular, o corpo vibrar e as ondas de excitação propagar-se por todo o corpo.
Quando os sentimentos são reprimidos, a pessoa perde a capacidade de sentir, gerando a depressão, um estado que infelizmente pode tornar-se um modo de vida. A repressão do sentimento é um processo de insensibilização que diminui a pulsação do corpo, sua vitalidade, seu estado de excitação.
Para Lowen saúde emocional é a capacidade de aceitar a realidade e de não fugir dela. Quando todas as partes do corpo estão carregadas de energia e vibrantes, sentimo-nos vibrantemente vivos e alegres. Contudo, para que isto ocorra, precisamos entregar-nos ao corpo e as suas sensações.
Sem uma rendição do ego narcisista, a pessoa não pode entregar-se ao amor. Sem esta entrega, a alegria é impossível.
Não se consegue sentir uma emoção a menos que se possa expressá-la num gesto, num olhar, no tom da voz ou por meio de algum movimento corporal.
A mudança profunda e significativa só pode ocorrer por meio da entrega ao corpo, por meio de um revivescimento emocional do passado. O primeiro passo nesse processo é chorar. Chorar é a aceitação da realidade tanto do presente como do passado. Também é uma tentativa do corpo de aliviar a dor que decorre de uma mágoa. Quando choramos, sentimos ou percebemos nossa tristeza nos damos conta do quanto estamos magoados e da extensão da nossa mágoa.
Conhecer a alegria é conhecer o sofrimento, mesmo quando ele não está imediatamente presente na vida. A autoconsciência é o conhecimento de que iremos perder nossos entes queridos e até mesmo nossa própria vida. Se rejeitarmos esse conhecimento, rejeitamos a nossa verdadeira humanidade e a possibilidade de conhecermos a alegria. Saber e sentir que a vida humana tem um aspecto trágico, que o sofrimento é inevitável, permite que a pessoa vivencie uma alegria que é transcendente. Fomos feridos e seremos feridos novamente, mas também seremos amados e respeitados por sermos seres humanos.
A idéia de entregar-se é assustadora para a maioria das pessoas, porém, entregar-se à própria natureza e permitir ao impulso uma expressão livre e plena reduz imediatamente a dor e resulta na agradável sensação de plenitude e liberdade.
Muitos pacientes resistem à entrega, à sua tristeza e ao choro, porque têm medo de que isso nunca vai parar. A resistência ao choro profundo tem um forte núcleo psicológico no medo do desespero. Toda pessoa que procura a terapia luta contra um sentimento de desespero, o desespero de nunca encontrar o verdadeiro amor, sentir-se livre ou compreender a plenitude do próprio self. O desespero é um sentimento terrível. Ele corrói a vontade da pessoa, enfraquece o desejo de viver e leva à depressão. O medo do desespero bloqueia a entrega total ao corpo no choro, que é o único meio de aliviar o indivíduo de seu desespero.
A emoção restauradora ou protetora é a raiva, esta é a reação natural à perda da liberdade.
Para expressar raiva verdadeiramente, o som deve ser apropriado à situação. Berrar e gritar, por exemplo, geralmente expressam ira e frustração em vez de raiva. Deve-se ter em mente que a raiva não é usada legitimamente para controlar os outros, mas para salvaguardar a própria integridade e bem-estar. O controle consciente dos sentimentos depende da percepção consciente deles.
Se um indivíduo não consegue protestar contra a violação de seu direito inato de auto-expressão, torna-se uma vítima cuja orientação é a sobrevivência, não a alegria. O indivíduo, primeiro, tem que reconhecer que tem o direito de protestar para depois desenvolver a capacidade de tornar esse protesto forte e eficiente.
O amor é a emoção que satisfaz. É uma ligação vital com uma fonte de vida e alegria, quer essa fonte seja um indivíduo, uma comunidade, a natureza, o universo, ou Deus. A perda do amor resulta em contração e retraimento (sofrimento profundo). O anseio por amor permanece no coração mas não pode ser realizado enquanto o medo da perda ou da rejeição persistir. O medo prejudica a capacidade de entregar-se ao amor.
A maturidade é o estágio na vida em que se conhece e aceita o próprio self. Conhecemos nossos próprios medos, fraquezas e manipulações, e os aceitamos. Aceitação não significa impotência, mas sim que se perde toda vergonha das próprias dificuldades ou problemas.
Medo, inveja, ódio, repulsão e atração, quando escondidos por causa da vergonha, tornam-se obstáculos importantes para a entrega ao amor.
O amor não é uma questão de dar, mas de estar aberto. Essa abertura tem que ser primeiro ao próprio self e isto implica estar em contato com os próprios sentimentos mais profundos e depois ser capaz de expressá-los apropriadamente.
Quando uma ligação amorosa é rompida, somos arrancados de uma fonte de excitação prazerosa e vital. O organismo inteiro se contrai, inclusive o coração. A dor emocional é sempre a perda do amor. Podemos ser feridos emocionalmente de diversas maneiras por rejeição, humilhação, negação, ataques verbais ou físicos. Mas cada um desses traumas para a personalidade é de fa to uma perda de amor.
Relacionamentos adultos saudáveis baseiam-se em liberdade e igualdade. Liberdade denota o direito de expressar livremente os próprios desejos e necessidades. Igualdade significa que cada pessoa está no relacionamento por si mesma, e não para servir aos outros.
Se olharmos para nós mesmos para encontrar os bons sentimentos, que são possíveis quando estamos em contato conosco e nos entregamos ao corpo, não podemos ser enganados e não seremos vítimas de abuso. Não podemos ser enganados porque não somos dependentes do outro se temos bons sentimentos, e nosso amor-próprio não nos permitirá aceitar abuso.
O medo de abrir mão do controle egóico e entregar-se ao corpo, ao self, à vida, tem dois aspectos: um é o medo da insanidade, o outro é o medo da morte.
O medo da insanidade decorre da percepção subliminar de que um excesso de sentimento poderá dominar o ego e resultar em loucura. O medo da morte está relacionado com uma vivência muito precoce em que a criança percebe que está diante da morte, que poderia morrer.
O medo da morte resulta em um medo da vida. A pessoa não pode se entregar à vida ou ao corpo porque entregar-se significa abrir mão dos controles egóicos, o que a colocaria cara a cara com o medo de que pudesse ou fosse morrer. Esse medo decorre de uma experiência de vida muito precoce de estar próximo da morte ou da possibilidade de morte, o que faz com o que o organismo se encerre numa armadura como uma medida de defesa para não ficar vulnerável a essa possibilidade novamente.
Mas viver armado ou em uma armadura permanente significa que a pessoa admite a possibilidade de ser atacada ou ameaçada com a perda da vida. Essa é a condição física e psicológica do sobrevivente. A energia que está investida no esforço para sobreviver não está disponível para gozar a vida.
Lutar é cansativo, e lutar pela sobrevivência é extremamente cansativo. Posto que a maioria das pessoas em nossa cultura são sobreviventes, a fadiga é o sintoma mais comum na população. É o lado físico de sentir-se deprimido. Mas os sobreviventes não podem se dar ao luxo de sentir cansaço ou depressão porque seriam tentados a desistir da luta e morreriam. Sua defesa é negar a fadiga e seguir em frente porque sentem que sua sobrevivência depende disso. Enquanto a pessoa não estiver pronta para se deitar, negará a sensação de cansaço. Na terapia, sentir-se cansado é um sinal de transformação se a pessoa puder associar isso a desistir da luta.
Nossa cultura é movida pelo poder. A medida que o poder aumenta, ele nos leva a um distanciamento cada vez mais rápido, do nosso self. Nossos corpos não conseguem mais acompanhar o ritmo das atividades exigidas deles o que é a base do estresse. Se relaxamos por alguns minutos, é só para podermos correr mais depressa nos minutos seguintes. Somos impelidos a continuar, impelidos a te r êxito, realmente estamos sendo impelidos para fora de nossos corpos.
O ser humano vem sendo doutrinado segundo a idéia de que somos obrigados a sermos saudáveis, potentes e bem sucedidos em todas as áreas da nossa vida. Se o que almejamos é o amor, a realização sexual e a alegria, isto só pode ocorrer e acontecer pela entrega e pelo desejo.
O amor é uma qualidade de ser, de ser aberto, e não de fazer.
Entregar-se ao corpo e ao seu sentimento pode soar para alguns como derrota. Mas só assim podemos nos libertar da corrida da vida moderna para sentir a paixão e a alegria que a liberdade proporciona.

Texto elaborado por Ana Lúcia Faria ( Local trainer da SOBAB), a partir do livro “Alegria” de Alexander Lowen.

2 comentários em “O caminho para a liberdade de ser você mesmo

  1. Gostei muito deste texto! O stress contínuo pode levar o ser humano a se descolar do seu próprio eu e a deixar sua alma perdida, desconectada. É um exercício e tanto refazer esta conexão e reconstruir os sentimentos e por consequencia os laços afetivos com o outro.

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